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Inflação China (abr/22): Sob efeito dos lockdowns

11/05/2022

Bottom line: A inflação chinesa ao consumidor avançou +0,4% em abril, levando o acumulado em 12 meses a +2,1%. Já a inflação ao produtor avançou +0,6% no mês, reduzindo o acumulado em 12 meses a +8,0%. Em ambos os casos, a inflação foi superior ao esperado pelo mercado. Os choques vão se acumulando e levando a surpresas negativas, mas ainda há amplo espaço para atuação contracíclica, especialmente se olharmos os preços aos consumidores. O cenário inflacionário chinês é muito mais benigno do que o observado em outras grandes economias globais.
A inflação chinesa ao consumidor avançou +0,4% em abril, levando a uma aceleração do indicador acumulado em 12 meses para +2,1%. O resultado foi  superior às expectativas de mercado (inflação acumulada de +1,8%) pelo segundo mês consecutivo. Há evidente efeito dos lockdowns na estrutura da inflação aos consumidores (tabela 1), ampliando a pressão relativa em bens (devido à desorganização das cadeias de produção e comercialização) e enfraquecendo a inflação de serviços (em ambiente de importantes restrições à mobilidade), sob um pano de fundo de contínua pressão de preços de combustíveis e energia – o que se materializa, de forma clara, no comportamento do grupo de “Transportes e Comunicação”.
No acumulado em 12 meses (gráfico 1), fica clara a dicotomia entre bens e serviços, ao mesmo tempo em que são limitadas as evidências de contaminação da inflação subjacente – em ambiente de restrições tanto do lado da oferta como do lado da demanda, a inflação do núcleo (ex-alimentos e energia) recua para +0,9% em 12 meses. 
Sob a ótica da inflação ao consumidor, consolida-se um espaço de manobra que pode ser utilizado pela autoridade monetária chinesa, caso necessário, para dar a sua contribuição à dinamização da economia neste momento de grandes restrições. Uma leitura tão benigna não emerge dos preços ao produtor, com crescimento de +0,6% em abril e desaceleração da inflação acumulada em 12 meses para +8,0% (gráfico 2). O resultado foi, tal como para os consumidores, superior às expectativas de mercado (inflação acumulada de +7,8%), sendo a terceira surpresa negativa consecutiva na inflação aos produtores chineses. 
Note-se que, nos últimos meses, a estabelecida correlação entre os preços ao produtor e os preços internacionais de commodities ficou menos marcada, com picos descasados entre os preços externos e domésticos chineses (gráfico 3). Mesmo com esses desvios pontuais, a relação continua robusta, o que não é bom sinal para os próximos meses – o prolongamento da guerra na Ucrânia, o deslocamento de estruturas de produção no mundo e a desorganização logística, na China e na Ásia, constituem um pano de fundo desafiador. As principais componentes do PPI chinês já começam a refletir esse realinhamento negativo de forças, com aceleração da inflação (acumulada em 12 meses) de mineração, extrativa e matérias-primas brutas (gráfico 4). Entendemos ser questão de tempo para que essas pressões apareçam nos insumos industriais, com repasse final aos consumidores a depender do comportamento relativo da demanda.
Em conclusão, os choques vão se acumulando e já começam a se refletir em surpresas negativas da inflação, ao menos em relação ao esperado pelo mercado. É forçoso reconhecer, no entanto, que as evidências de repasse aos consumidores são parcas, em cenário de clara carência de demanda devido a restrições sanitárias e desorganização dos meios de distribuição e comercialização de bens e serviços. O cenário inflacionário chinês é muito mais benigno do que o observado em outras grandes economias globais.
Tabela 1: Inflação – aberturas selecionadas

Gráfico 1: 
Inflação ao consumidor (acumulado em 12 meses)
Gráfico 2: Inflação ao produtor (mensal e acumulado em 12 meses)
Gráfico 3: Inflação ao produtor vs. commodities (CRB), acumulado em 12 meses
Gráfico 4: Inflação ao produtor (aberturas selecionadas, acumulado em 12 meses)